A importância de dormir bem

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Qualidade de vida

Acúmulo de tarefas e distúrbios do sono prejudicam as noites e a saúde de habitantes de grandes cidades

A qualidade do sono está diretamente ligada à qualidade de vida do ser humano. Enquanto dormimos, nosso organismo realiza funções extremamente importantes: fortalecimento do sistema imunológico, secreção e liberação de hormônios, consolidação da memória, entre outras. Assim, o cotidiano urbano cada vez mais corrido, diminuindo nossas horas de descanso, somado aos inúmeros distúrbios noturnos que atingem boa parte da população, prejudica o desempenho dessas funções no nosso organismo. “Dormia-se 9 horas por noite no começo do século 20. Hoje, este tempo é cada vez menor”, explica o pneumologista, professor da Faculdade de Medicina (FMUSP) e diretor do Laboratório do Sono do Instituto do Coração (InCor), Geraldo Lorenzi-Filho.

A grande quantidade de afazeres que acumulamos, faz com que habitualmente algumas horas do nosso sono sejam trocadas por atividades diversas, o que acontece principalmente com jovens e adultos. A recomendação médica é que se durma cerca de 8 horas por dia, e estudos recentes feitos na Europa, Estados Unidos e Japão mostraram que quem cumpre a agenda tem maior expectativa de vida. “Dormir mal é uma desgraça. Em um momento que seu corpo deveria estar descansando e se restaurando, ele faz tudo ao contrário”, comenta Lorenzi. Normalmente as consequências de noites maldormidas e sono de má qualidade podem ser bem sérias, vão de estresse e ansiedade, a curto prazo, a complicações cardiovasculares após alguns anos.

É importante para uma noite bem dormida, respeitar as 8 horas recomendadas, lembrando que dormir muito mais do que isso, que é melhor e, inclusive, pode ser sintoma de algum distúrbio. A continuidade e a profundidade do sono são aspectos essenciais. Segundo o neurologista especialista em medicina do sono e professor da FMUSP Rubens Reimão, “cada estágio do sono tem sua importância fisiológica. Por isso, é fundamental dormir bastante nas fases mais profundas. Isso melhora a qualidade da noite dormida”.

O que dizer então sobre o famoso cochilo após o almoço? Aquele que é inclusive cultural em alguns países – a sesta? Se tirado com regularidade, ele faz bem, a pessoa se sente renovada ao acordar. Poré, se for um ocasional, somente quando sobra um tempinho, já não é bom. “De

uma forma geral, atrapalha o sono durante a noite e mostra que a pessoa está dormindo pouco durante a semana”, explica Reimão.

Distúrbios do sono

Os distúrbios do sono prejudicam a qualidade do descanso, que muitas vezes já não é boa, por ser em tempo reduzido, causando ou acentuando problemas de saúde.

A apneia e a insônia são dos distúrbios mais comuns. De acordo com pesquisa realizada pelo Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a apneia afeta 33% da população paulistana adulta, e é identificada por pausas respiratórias, que podeme durar mais de 10 segundos, durante a noite e que são consideradas anormais quando ocorrem mais de cinco vezes por hora de sono. O ronco é um indicativo de apneia. “Quando dormimos, a musculatura da faringe relaxa e podem ocorrer obstruções na via aérea. É fisiológico isso”, explica Geraldo Lorenzi. A obesidade, portanto, contribui para essa obstrução, já que o depósito de gordura na via aérea superior estreita a garganta.

No Laboratório do Sono do InCor, Lorenzi e sua equipe estudam a relação da apneia com riscos e complicações cardiovasculares. “O sono é o momento de descanso, entre outras coisas, do sistema respiratório, do cardiovascular e do cérebro. Nele, há diminuição da pressão arterial, da frequência cardíaca e da respiração”, comenta o pneumologista. Consequentemente, quando se tem apneia obstrutiva, pioram os efeitos de doenças do sistema circulatório. “É uma relação causal meio misturada”, explica. “Aproximadamente 70% dos apnéticos possuem hipertensão arterial, por exemplo, e 30% dos que têm hipertensão arterial são também apnéticos”. Quando o distúrbio é tratado e atenuado, vê-se uma melhora no quadro de hipertensão. Além disso, arteriosclerose, fibrilação arterial – tipo mais comum de arritmia cardíaca –, aumento do risco de AVC (Acidente Vascular Cerebral), de infarto agudo do miocárdio e até de diabetes estão associados à apneia obstrutiva.

A insônia também é muito comum. Pesquisas da Unifesp mostram que 40% dos paulistanos em geral se queixam dela, sendo 15% deles diagnosticados como insones. A questão é que existem dois tipos: a situacional – sentida por qualquer um em períodos de ansiedade e nervosismo, como antes de provas importantes – e a crônica, quando os problemas para dormir duram mais

de um mês. “Nesse caso, a pessoa tem que fazer um tratamento para ver qual é a causa e combatê-la”, explica Rubens Reimão. A falta de sono à noite pode fazer com que a pessoa fique agressiva e ansiosa durante o dia seguinte, e no longo prazo prejudica a saúde por não deixar o corpo cumprir as funções que executa quando dorme, além de poder causar depressão.

Outros distúrbios são menos comuns, mas quando ocorrem também complicam a qualidade do sono: bruxismo – ranger e apertar com força excessiva os dentes durante a noite –, sonambulismo e síndrome das pernas inquietas – necessidade irresistível de movimentar os membros inferiores por causa de um extremo desconforto – são alguns deles.

Tratamento

É importante, portanto, ao sentir que a qualidade de seu sono está sendo prejudicada por algum distúrbio, que a pessoa procure resolvê-lo. A polissonografia, exame que monitora os pacientes dormindo por uma noite através de uma série de canais, permite diagnosticar os problemas com precisão.

“Quem sofre de distúrbios deve analisar os hábitos que possui e identificar o que pode ser modificado para melhorar a qualidade de seu sono” – Rubens Reimão

Para os apnéticos, a máscara CPAP (Continue Positive Airway Pressure) é o tratamento mais eficiente. O aparelho provoca um fluxo de ar contínuo que entra pelo nariz do usuário e abre sua garganta, impedindo a obstrução da via aérea durante a noite e evitando os efeitos do distúrbio. O desconforto estético provocado pelo uso da máscara e a dificuldade em se acostumar com a pressão positiva, no entanto, diminuem a adesão à terapia. Segundo Vivien Piccin, fisioterapeuta do Laboratório do Sono do InCor, somente em torno de 50% das pessoas que experimentam a CPAP continuam usando-a depois. Diante desses empecilhos, existem tratamentos alternativos, como exercícios de musculatura ligados à área da fonoaudiologia ou até, como conta Vivien, “sugerir que seja costurado um bolso nas costas do pijama e que se coloque uma bola de tênis dentro dele, o que impedirá que o paciente durma de barriga para cima, posição não recomendável para apnéticos”.

Para Vivien Schmeling Piccin, o fisioterapeuta deve dar atenção especial aos desconfortos do paciente no começo da terapia com a máscara CPAP

Quanto aos insones, o tratamento por medicação deve ser feito apenas pelos crônicos e sempre com orientação profissional. Se tomados de forma inadequada, os hipnóticos fazem com que a pessoa fique dependente deles para dormir e não solucione verdadeiramente seu problema. Utilizar remédios com outras funções, mas que causam sono como efeito colateral, também não resolve nada.

O que vale mesmo, para a maioria dos distúrbios, é o velho “prevenir é melhor do que remediar”. A simples mudança de hábitos no dia a dia diminui a ocorrência de vários problemas.

A prática de exercícios físicos, um sono regular e até deitar em posições confortáveis, melhoram a qualidade do sono de qualquer pessoa. A alimentação também tem um papel importante: comidas gordurosas antes de dormir, assim como estimulantes e álcool, atrapalham. Além disso, “os procedimentos de higiente do sono são extremamente importantes”, destaca Vivien. “Se a pessoa leva trabalho para a cama, dorme com o computador ligado, acaba associando o leito com o ambiente estressante do dia a dia. O quarto deve ser um lugar condicionado para dormir.”

Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), 40% da população mundial não dorme como gostaria e sofre de algum distúrbio do sono. Porém, poucos se preocupam em resolver os problemas. Conforme declara Geraldo Lorenzi, “dormir é uma função essencial, tão importante quanto comer ou beber água, mas parece que nossa sociedade, a sociedade da vigília, se esqueceu disso.”

Fonte Revista Espaço Aberto – USP https://www.usp.br/espacoaberto/ – Brazil

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